NOEMÁFAGOS

VAZANTE

Danilo de Athayde
DE NOEMÁFAGOS
O céu está baixando a voz. A luz
que ainda nos alcança, alcança grave,
como se cada mundo, ao se afastar,
falasse cada vez mais de dentro do peito.
O espaço engorda entre nós e as coisas,
e engorda mais depressa do que a luz
é capaz de atravessá-lo. Esta noite,
mundos inteiros passam, sem um gesto,
do ponto onde luz nova não nos chega.
De cada um já viaja a última luz,
que o caminho estica e vai gastando,
e atrás da última, em vez do escuro, o nunca.
Os que vierem tarde herdarão um céu
limpo como um teorema, uma ilha só,
nenhuma outra fogueira em todo o mar,
e instrumentos perfeitos confirmando
que sempre foi assim. Terão razão
com tudo o que puder ser conferido.
Terão razão, e estarão sós do modo
mais fundo que há, sem nem sabê-lo.
Lerão, no que deixarmos, que houve início
em brasa, e outras ilhas, e esta maré,
e hão de sorrir com a justa paciência
com que sorrimos hoje do elefante
que sustentava o mundo. O nosso fogo
será o elefante deles. E o método
que lhes ensinarmos mandará, sereno,
que duvidem de nós. E estará certo.
Nós viemos cedo. É todo o nosso mérito.
A casa ainda está morna do princípio.
Encosta a mão em qualquer ponto da noite
e a noite devolve um resto de febre.
Somos, por pouco tempo, contemporâneos
de quase tudo. A vista morre com o dono.
O que deixarmos dito há de chegar
sem a luz que o confirmava, escritura
e disparate, as duas coisas, conforme
a noite de quem ler.
E numa noite longe, alguém, curvado
sobre um vidro extremo, verá tremer
um ponto que não devia estar ali,
pequeno demais para valer o espanto.
Vai limpar a lente devagar,
e o que restava do lado de fora,
o resto todo, sai no pano,
junto com o pó.
E o céu, então, estará perfeito.
← o poema baixar em PDF