NOEMÁFAGOS

PORQUE SIM · PORQUE NÃO

Danilo de Athayde
DE NOEMÁFAGOS
Porque sim
Antes do sono ela pergunta por quê,
e eu respondo, e dentro da resposta
mora outra pergunta,
como na boneca mora outra boneca
e na chave outra fechadura.
Por que a chuva. Porque a nuvem.
Por que a nuvem. Porque o mar,
quando o sol o chama, sobe.
Por que o sol. Por que o chamado.
Cada resposta é uma porta
empurrada para um corredor de portas,
e as palavras com que explico
são mais escuras que a coisa explicada.
Descemos juntos os porquês
contando os degraus no escuro,
até que a escada acaba
e ainda não é o chão.
Digo então: porque sim.
As duas palavras deitam tábuas
sobre o poço, grama sobre as tábuas
e, sobre a grama, um quintal.
Dou-lhe um chão que não tenho.
E ela dorme. E o chão que não existe
sustenta, a noite inteira,
o peso de um pardal.
Um dia ela vai saber
que tudo o que há começou
como esta noite,
com um porque sim dito baixinho
para que alguém pudesse dormir.
Porque não
Fico. Piso devagar as mesmas tábuas
e elas rangem fino
Um pardal elas seguram. Um homem, não.
Ouço a água que continua caindo.
Tiro, uma a uma, as tábuas que pus,
boca aberta para as estrelas,
e sento na beira, as pernas para dentro,
como quem senta na beira de uma cama.
(Eu já desci essa escada sozinho.
Ninguém contava os degraus comigo.
Desci o primeiro, ainda com certeza.
O segundo, que já era costume.
No terceiro, perguntei ao terceiro
se ele existia, e ele rachou,
e da fenda nasceram dois degraus menores,
e perguntei a esses dois.
Guardei os dois, os quatro, os oito.
Uma plantação cresceu no escuro.
Quando acabaram os degraus que havia,
continuei pelos que iam nascendo.
Duvidei da água. Duvidei do som da água.
Duvidei, por fim, deste ouvido.
Quando não sobrou mais nada em que duvidar,
uma coisa continuou, do tamanho de uma pergunta,
e essa, até hoje, não consigo.)
Cada pergunta que não fecho
é uma casa onde ainda cabe gente.
Esta noite eu não desço. Fico na beira,
os pés no primeiro degrau, o único
que ainda aguenta um homem inteiro.
A água lá embaixo muda de conversa
conforme a noite passa por nós dois.
Antes falava só de fundo.
Depois, de frio. Agora, de vez em quando,
solta uma palavra que parece minha.
(É uma vigília, esta,
de quem gosta tanto de uma coisa
que prefere ficar na janela
a resolvê-la depressa e ir dormir.)
Um dia ela vai saber
que tudo o que há começou assim:
com um porque sim dito baixinho
sobre uma água que eu ainda ouço.
Antes que ela acorde, ponho as tábuas de volta.
Por cima, a grama. Por cima, o dia.
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