INTERIOR COM FIGURA AO FUNDO
Danilo de Athayde
DE NOEMÁFAGOS
As paredes ainda estão mornas
de um forno que ninguém viu aceso.
Você dorme no cômodo do fundo.
Levo-te o café pelo corredor
onde há camas arrumadas
para quem envelhece no caminho.
As cartas que te escrevo daqui
amarelam no trajeto
e trazem selos de países
que ficam entre a cozinha e você.
O desenho que fiz da casa, para atalho,
ocupa hoje a ala oeste,
úmido, criando devagar
um mofo com feições de jardim.
Os rodapés convergem para um ponto
logo atrás do teu travesseiro,
é para lá que a casa, imóvel,
escoa.
O fundo da casa é uma quinta-feira
para onde rangem, pacientes,
as tábuas do assoalho.
Quando te viras no sono,
a casa inteira range e se corrige.
Chego a tocar o teu ombro. Não
o alcanço.
Teu corpo, adormecido,
é maior por dentro do que a casa.
Um dia a porta da frente vai aparecer
entre os móveis, destrancada.
Abre, como todas as outras,
para dentro.