A CIFRA
Danilo de Athayde
DE NOEMÁFAGOS
A Musa faltou, compareceu o dado.
O coro que girava o firmamento
cabe numa constante, e o seu ditado
já não pede ouvido, só instrumento.
Mediram véu por véu o antes sagrado
e acharam véus e véus, nenhum alento,
nenhum rosto no fundo do gravado:
um vítreo vulto, e dentro o vulto, vento.
Resta, do canto, um resto de calor
a três graus do zero, a assinatura
de um remetente extinto, e o estupor
de achar, na conta certa, a noite escura
maior. E ler, sem voz nem tradutor,
a cifra que não erra e não procura.