deponho porque voltei,
é essa a minha desqualificação.
Toda a natureza clama que ele é.
Mas natureza é o nome do que volta.
Coro de regressados. E o que clama
clama porque sobrou clamor e boca.
O visível é a ata do que vinga.
O real, plebiscito sem ausentes,
unânime à maneira dos cartórios.
Na guerra, um homem mediu os furos
dos bombardeiros que voltavam: asa,
cauda, leme — e pediam os generais
ferro ali. Ele disse: não. Blindai
o intocado, o motor, a cabine ilesa.
Quem foi ferido aí não consta do hangar.
A um, na fresta da rocha, coube ver
a glória já passando, pelas costas,
a dose que do fogo um corpo aguenta.
Consta: em Óstia, à janela do horto,
mãe e filho roçaram num suspiro
a sabedoria eterna... e recuaram
para que houvesse livro. O êxtase
coube na cláusula e rendeu capítulo.
Paulo subiu ao céu que tem um número,
ouviu o que dizer não era lícito
e desceu e disse ao menos o não-posso.
Lacrou, datou, pôs remetente. O inefável
com firma reconhecida prospera
mais do que o dito, e nunca o desmente.
Tomás ergueu a hóstia de dezembro
e viu. Do que viu temos o estrago.
A Suma estancada, a palavra palha,
o silêncio até março, quando a morte
o levou sem deixar recibo. E a palha
rendeu. O ser conduz tudo o que o nega
ao engenho, e do bagaço tira açúcar.
E Dante viu três giros de três cores
e de uma só medida, e confessou
que à alta fantasia faltou força,
mas não faltou ao verso. A terza rima
cruzou ilesa a visão, voltou trazendo
o infinito com selo de alfândega.
O metro é o passaporte do retorno.
Quem rima chegou vivo à última sílaba.
No Mecom, um só braço acima da água
sustentou o poema; o outro braço
— havia um outro braço — não bastou:
Dinamene desceu sem uma estrofe
que a vestisse, e o canto secou no mastro.
Na noite, o amor pesou menos que o papel.
Molly, no escuro, emborca o sim ao sim,
flor da montanha, e o século se fecha
num yes. Bonito e parcial como um espólio.
Agora lede o arquivo a contrapelo.
Semele quis a forma sem o empréstimo
das formas — e a forma plena é tal fornalha
que consome até o próprio consumir-se.
Quem viu a face, a face, e não seu rastro
de costas nas criaturas, não responde
ao censo. Não constar não é o avesso
de constar, é nem isso, nem medida
nem desmedida, surda às partidas
dobradas com que o ser se contabiliza.
Nem digo as flores que jamais subiram
à mais mínima hipótese da terra.
Até o irrealizado tem lombada
e o não nato é credor. Digo o que falta
à própria falta, o que não deixa o molde
oco com que a ausência se prova nos museus,
o que não chega ao luto nem ao zero.
Por isso a balança pende, e pende sempre:
num prato, as Confissões, as laudes, Molly,
o giro das esferas; no outro prato,
mas não há outro. O outro é o que
não compareceu. Pesar já é militar
no ser. A agulha nasce viciada
como nasce um templo.
E eu, que escrevo,
escrevo porque as costas foram-me
a face máxima entrevista, trago
no metro o selo do meu barco, e cada
verso atesta contra mim. Deponho
e o depoimento me devolve ao coro
dos que voltam. Não há vara que intime
a testemunha competente. Seu
não-estar é o corpo do testemunho
e citá-la seria já perdê-la.
Encerro os autos com a mão que tenho.
Toda natureza clama. E como não,
se o amor cinge o sol e os sobreviventes?