TRAÇA
Danilo de Athayde
DE NOEMÁFAGOS
Não sabe ler. Por isso não pula nada.
Come no mesmo passo a assinatura e a mancha,
a cláusula e a data da chuva.
Prefere a cola, o que unia.
Começa pelo lombo e desfaz o juramento
que mantinha as folhas na mesma opinião.
Comeu a palavra fome
e continuou com fome.
Comeu a palavra luz
e o túnel seguiu no escuro.
Fura o livro de capa a capa,
é a única leitura em linha reta.
E deixa, para o leitor seguinte,
um alfabeto rendado,
que só se lê erguendo a página
contra o dia.